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O que aconteceu com as “carreiras vitalícias”?

O que aconteceu com as “carreiras vitalícias”?

 O que aconteceu com as “carreiras vitalícias”?

ROBERTO * trabalhou 37 anos numa grande empresa australiana. Já perto da casa dos 60, recebeu aviso prévio com apenas algumas semanas de antecedência. É compreensível que tenha ficado perplexo, atônito e profundamente preocupado com seu futuro. ‘O que aconteceu com a minha “carreira vitalícia”, que eu julgava estar garantida até me aposentar?’, perguntou-se.

Sabemos que perder o emprego não é incomum nem é algo novo. Mas a extensão desse fenômeno em escala global é nova para a atual geração de trabalhadores. Sem dúvida, existem muitos motivos para a perda do emprego, mas um dos principais parece ser o que é chamado de enxugamento. O que é enxugamento, e como surgiu?

Mudança no local de trabalho

As economias hoje estão cada vez mais globalizadas. Isso aconteceu principalmente nos Estados Unidos em fins da década de 70, quando as empresas notaram que cada vez mais consumidores estavam comprando carros, produtos eletrônicos e muitos outros artigos importados.

Para se tornarem competitivas no mercado e reduzir os custos de produção, as empresas americanas começaram a reduzir o quadro de funcionários e aprimorar métodos e equipamentos. A técnica usada para reduzir o quadro de funcionários veio a ser conhecida como enxugamento. O processo tem sido descrito como a “redução do quadro de funcionários de uma organização, em geral combinando demissões, incentivos para uma aposentadoria precoce, transferências e desgaste natural”.

Por muitos anos, os operários foram a classe mais afetada pelo enxugamento. Mas em fins da década de 80 e início dos anos 90 esse processo começou a incluir crescentes números de funcionários de colarinho branco, principalmente os executivos de segunda linha. Essas tendências logo afetaram todas as nações industrializadas. E ao passo que as pressões financeiras continuaram, os governos e outros empregadores procuraram enxugar ainda mais os custos.

Para muitos trabalhadores, a estabilidade no emprego deixou de existir. Uma autoridade sindical diz: “Pessoas que prestaram 10, 15 ou 20 anos de serviço leal viram seu contrato implícito ser rasgado e foram demitidas.” No seu livro Healing the Downsized Organization (Como Restaurar Uma Organização depois do Enxugamento), Delorese Ambrose explica que o termo “homem de organização” foi cunhado em 1956 para descrever o funcionário típico. Ela acrescenta: “Quer trabalhasse como operário quer como gerente, seu bem-estar econômico, vida social e lealdade estavam atreladas à organização, e em troca ele recebia a segurança de ter um emprego vitalício. É evidente que nas empresas modernas esse pacto foi violado.”

Milhões de trabalhadores ao redor do mundo perderam o emprego em decorrência do enxugamento, e nenhuma classe escapou ilesa. Somente nos Estados Unidos, o número de funcionários envolvidos tem sido significativo, com milhões perdendo empregos fixos. Enxugamentos similares têm ocorrido em muitos outros países. Mas as estatísticas frias em si não revelam a angústia e o sofrimento que isso causa.

 Efeitos adversos

Roberto, mencionado no início do artigo, disse: “A pessoa sofre um impacto psicológico muito grande.” Ele comparou sua demissão a “uma doença ou a sofrer um golpe físico contundente”.

Quando a lealdade não é recompensada, as pessoas se sentem traídas porque os sacrifícios que fizeram pela empresa não foram reconhecidos. Perde-se a confiança, especialmente quando muitos executivos de alto escalão recebem grandes remunerações para fazer o enxugamento. Além do mais, a perda do emprego compromete a capacidade da pessoa de pagar hipoteca, outras dívidas, assistência médica para a família, mensalidades escolares, e de manter o estilo de vida, os hobbies e as posses. Isso faz com que a pessoa caia no desespero e tenha sentimentos de inutilidade.

Visto que o emprego estável e significativo contribui grandemente para a auto-estima da pessoa, imagine o efeito devastador que o desemprego pode causar nos deficientes físicos, nos que não têm qualificação profissional ou nos que têm mais idade. Uma pesquisa na Austrália revelou que pessoas entre 45 e 59 anos de idade eram o alvo mais provável de serem dispensadas. No entanto, essa é justamente a faixa etária que tem mais dificuldade de se ajustar a essa mudança.

Existem opções? O emprego de meio período ou um trabalho que pague menos certamente é preferível ao desemprego. Mas isso pode resultar num padrão de vida mais baixo. E tem-se constatado que apenas cerca de um terço dos trabalhadores demitidos por fim conseguem empregos que pagam tão bem quanto o emprego anterior. Isso acrescenta uma carga de estresse na família.

Mesmo a pessoa que tem um emprego talvez não esteja tranqüila. Isso acontece porque a perspectiva de perder o emprego tem um efeito devastador, ainda que sutil. O livro Parting Company (Adeus à Companhia) diz: “Ter o pressentimento de perder o emprego é como escolher a melhor maneira de ser atingido por um caminhão. Você raramente chega a testar as idéias mais engenhosas, porque geralmente só vê o caminhão — ou o corte — quando ele o atinge em cheio.”

Como o desemprego afeta os jovens? Após uma pesquisa realizada por um departamento de educação e ciência, fez-se esta observação: ‘Para eles, uma das principais confirmações externas de se ter ingressado no mundo dos adultos era ter conseguido um emprego de período integral (indicativo da vida adulta “pra valer”), num mundo de adultos e em padrões de adultos, acompanhada da independência financeira.’ Assim, se o jovem acha que um emprego é o passaporte para a maioridade, o desemprego pode ser devastador.

 Como sobreviver ao desemprego

Lidar com a demissão tem sido comparado a andar num campo minado. O livro Parting Company diz que os sentimentos mais freqüentes são ira, vergonha, medo, tristeza e autocomiseração. É difícil lidar com tais sentimentos. Os autores dizem: “Você recebe uma atribuição difícil — determinar seu futuro. Você não pediu essa atribuição, provavelmente não sabe como agir, e de repente pode se sentir totalmente desamparado.” E explicar a súbita demissão à família é uma das coisas mais difíceis de enfrentar.

Mas há algumas medidas práticas para lidar com o impacto causado pelo enxugamento. O primeiro passo é enxugar seu estilo de vida imediatamente por planejar (e adotar) um estilo de vida mais simples do que aquele a que estava acostumado.

Apresentamos a seguir algumas sugestões que, embora talvez não solucionem o problema, poderão ajudá-lo a lidar com a situação. Em primeiro lugar, reconheça que hoje em dia é comum a pessoa perder o emprego de forma inesperada. Assim, independentemente de sua idade ou experiência, planeje para essa possibilidade na maneira em que leva a sua vida.

Em segundo lugar, seja cauteloso quanto a assumir grandes dívidas por itens que não sejam essenciais. Viva dentro das suas possibilidades, e não assuma dívidas contando com promoções ou aumento de salário. A temática da economia atual é que o futuro a longo prazo não está garantido.

Em terceiro lugar, procure maneiras de simplificar sua vida e reduzir os compromissos financeiros. Isso inclui livrar-se de dívidas por itens não-essenciais, adotando um estilo de vida razoavelmente simples e saudável.

Em quarto lugar, reavalie seus alvos na vida, tanto os espirituais como os seculares. Daí poderá analisar todas as suas decisões de acordo com esses alvos e avaliar o provável resultado.

Por fim, não fique almejando o estilo de vida de outros na sua comunidade que podem se dar ao luxo de gastar mais, para que não comece a desejar as coisas que eles possuem e seja seduzido a copiar seu estilo de vida.

Essas são algumas sugestões que poderão ajudar a você e a sua família a evitar o laço de confiar em riquezas incertas num mundo repleto de incertezas e a manter-se livres de muitas das ansiedades decorrentes dos estilos de vida contemporâneos.

Felix Rohatyn, ex-banqueiro e investidor, disse: “O fato de o desemprego de um gerar a riqueza de outro mostra que há algo de fundamentalmente errado em nossa sociedade.” Tão fundamentalmente errado que esse sistema logo será substituído por um mundo onde a expressão “carreira vitalícia” assumirá um significado muito além do que possamos imaginar hoje. — Isaías 65:17-24; 2 Pedro 3:13.

[Nota(s) de rodapé]

^ parágrafo 2 O nome foi mudado.

[Destaque na página 14]

“O fato de o desemprego de um gerar a riqueza de outro mostra que há algo de fundamentalmente errado”

[Foto na página 15]

Procure maneiras de simplificar sua vida