O irmão Teymur Akhmedov foi libertado da prisão em 4 de abril de 2018, depois de receber indulto — um perdão oficial — do presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev. O irmão Teymur ficou preso por um total de 441 dias. As autoridades o prenderam simplesmente por que ele estava falando com outros sobre suas crenças religiosas.

Agora, Teymur e sua esposa, Mafiza, já voltaram para casa em Astana, capital do Cazaquistão. Assim que Teymur saiu da prisão, ele e sua esposa foram entrevistados pelo Departamento de Informações ao Público (DIP), que fica na sede mundial das Testemunhas de Jeová em Warwick, Nova York. Veja um resumo da entrevista.

DIP: Para começar, queremos saber um pouco mais sobre você, irmão Teymur. Quando você se tornou Testemunha de Jeová?

Teymur: Eu me batizei em 9 de outubro de 2005. Antes de aprender a verdade, eu era ateu. Por muitos anos, não acreditava em nada — em nenhum deus e em nenhuma religião. Quando a minha esposa começou a estudar com as Testemunhas de Jeová, eu fiquei curioso sobre o que ela estava aprendendo. Eu ficava atrás da porta, escondido, ouvindo o que elas estavam conversando.

Quando eu vi o que elas estudavam, fiquei surpreso, porque elas só falavam sobre coisas boas. Mais tarde, as Testemunhas de Jeová me apresentaram ao irmão Veslav, que era da Polônia, mas estava morando no Cazaquistão. Na primeira vez que conversei com ele, eu disse: “Eu vou te fazer só uma pergunta. Se eu gostar da resposta, vamos ser amigos e continuar conversando. Mas, se eu não gostar da sua resposta, espero que você não se ofenda, mas não vamos mais continuar conversando.” Daí eu perguntei ao irmão Veslav o que acontece depois da morte. Ele abriu a Bíblia em Eclesiastes 9:5 e disse: “Leia esse versículo e você vai descobrir.” Quando eu li aquele versículo, percebi que aquela era a verdade. Eu concordei em conversar com ele de novo e estudar a Bíblia.

Daí você estudou a Bíblia e foi batizado em 2005.

Agora vamos falar do que aconteceu antes da sua prisão. Em maio de 2016, você encontrou um grupo de homens que diziam estar interessados nas crenças das Testemunhas de Jeová. Durante alguns meses você os encontrou várias vezes para conversar sobre a Bíblia. Pensando naquelas conversas, você ficou desconfiado de algo que eles disseram ou fizeram?

Teymur: Fiquei. Eu disse que normalmente os estudos da Bíblia eram feitos individualmente, não em grupo. Eu sugeri que eles estudassem separadamente. Mas, todas as vezes que eu sugeria isso, eles recusavam, dizendo que gostavam das conversas em grupo. Várias vezes, eles convidavam outros para participar do estudo e me pediam para repetir o que eles já tinham estudado na visita anterior.

Mafiza: Uma vez, eu também participei de um estudo bíblico com eles. Eu percebi que eles estavam debatendo sobre outras religiões, apesar de já estarem estudando por um bom tempo. Também percebi que o apartamento em que eles moravam era mais caro do que muitos estudantes poderiam pagar. Eu comentei que eles tinham uma vida bem luxuosa e coisas bem caras, em comparação com outros estudantes. Eles ficaram incomodados com o que eu falei. Quando estávamos saindo, eles puxaram Teymur de lado e, enquanto eu estava esperando do lado de fora, falaram pra ele não me levar mais nos estudos.

Quando foi que você descobriu que aqueles homens não estavam interessados nas crenças das Testemunhas de Jeová e que, na verdade, trabalhavam para a polícia secreta do Cazaquistão, a Comissão de Segurança Nacional (CSN)?

Teymur: Só fiquei sabendo disso durante a audiência no tribunal.

Qual foi a sua reação ao ser preso e depois acusado de “incentivar a discórdia religiosa” e defender “superioridade [religiosa]”?

Teymur: Para ser bem sincero, quando eu fui preso, pensei que iam me levar para a delegacia — como tinham dito — para me esclarecer o que eu tinha feito, e depois eu ia ser liberado. Eu estava preparado para me defender e explicar sobre o que eu conversava com aqueles homens.

Eu fiquei muito surpreso com o que aconteceu depois, mas não estava com medo. As acusações de incitar ódio religioso e extremismo foram uma grande surpresa para mim. As Testemunhas de Jeová compartilham o que sabem sobre Jeová e não incentivam o ódio nem a desunião. Eu estava completamente convencido de que era inocente e que Jeová ia me apoiar. É claro que eu estava preocupado, mas pensava no conselho da Bíblia de lançar ‘sobre Jeová toda a nossa ansiedade, porque ele cuida de nós’. — 1 Pedro 5:7.

Mais tarde, em 2 de maio de 2017, depois da sua prisão preventiva de mais de três meses, o tribunal do distrito, em Astana, o sentenciou a uma pena de cinco anos de prisão e o proibiu de participar em atividades de educação bíblica por mais três anos. Como você se sentiu ao saber dessa sentença?

Teymur: Quando a corte anunciou a decisão, eu me conformei que teria que cumprir toda a pena e passar cinco anos na prisão, se isso fosse preciso. Eu pensei: ‘Se isso é um teste, então Jeová está no controle de quanto tempo ainda vai durar, e ele sabe quando a prova vai terminar.’ Eu estava decidido a esperar o quanto fosse necessário.

O centro correcional na cidade de Pavlodar, no Cazaquistão, onde o irmão Teymur Akhmedov foi preso.

Nós sabemos que, durante sua prisão, você estava com um problema sério de saúde. É isso mesmo?

Teymur: Sim. Eu já estava doente e fazia tratamento antes de ir para a prisão. Quando eu fui preso, meu tratamento foi interrompido, e minha doença começou a avançar.

Mafiza, como você se sentiu durante todo esse tempo?

Mafiza: Eu estava muito assustada e deprimida. Depois que o Teymur foi preso, até tomar decisões era difícil pra mim. Nós estamos casados há 38 anos, e nunca ficamos separados. Mas Teymur me consolava, dizendo: “Não se preocupe! Jeová vai nos devolver esses 5 anos de separação com mais 25 anos juntos — ainda neste sistema de coisas!”

O que mais ajudou você durante o tempo em que seu marido esteve preso?

Mafiza: Os irmãos e as irmãs me ajudaram muito. Quando Teymur foi preso, eu pensei que todo mundo ia ficar com medo de me visitar, por causa dos acontecimentos que envolveram a prisão dele. A polícia estava vigiando a nossa casa e as nossas atividades.

Mas, um dia, um ancião e sua esposa vieram me visitar, e isso foi muito encorajador pra mim. Quando eu perguntei: “Vocês não estão com medo de vir até aqui?”, eles responderam: “Por que estaríamos com medo? Hoje em dia as autoridades conseguem nos rastrear pelo nosso celular. Se eles quiserem, podem nos encontrar facilmente.”

Numa visita de pastoreio, os anciãos me incentivaram a não me deixar abater por essa provação, e a ser forte espiritualmente.

Teymur, o que o ajudou a perseverar e a continuar positivo?

Irmão Teymur acorrentado a uma cama de hospital em Almaty, pouco antes de ser libertado. Cuidados médicos foram negados no início, mas autoridades permitiram que ele recebesse tratamento quando sua saúde piorou.

Teymur: Orar a Jeová! Eu orava todo dia, pedindo orientação, sabedoria e força para que eu pudesse continuar alegre, leal e fiel durante essa fase difícil. As respostas de Jeová às minhas orações eram muito claras. Ele me apoiou, e eu não me senti sozinho na prisão.

O que também me ajudou muito foi ler a Bíblia. Em uma das prisões, eu tinha a Bíblia disponível todo o tempo. Em outra, havia uma Bíblia na biblioteca, e eu podia ler a Bíblia lá uma vez por semana.

Eu também me lembrava das palavras do irmão que estudou a Bíblia comigo. Ele falava que não devemos ter medo dos desafios que enfrentamos. Eu me lembro de ter perguntado a ele: “Por que eu não deveria ficar com medo? E se a situação for difícil e desafiadora?” Ele disse que Jeová não permite que sejamos tentados além do que podemos suportar, e que Jeová nos dá força para superar qualquer provação. (1 Coríntios 10:13) Enquanto estive na prisão, nunca me esqueci dessa verdade da Bíblia.

Como você se sentiu ao saber que os irmãos de todo o mundo sabiam da sua situação e estavam orando por você?

Teymur: Eu senti, sem dúvidas, que era a mão de Jeová, porque a organização pertence a ele. Era uma garantia de que eu não seria abandonado, e que Jeová uma hora ia me socorrer.

O interessante é que ir pra prisão era justamente o que eu mais tinha medo. Eu morria de medo de prisões. Quando eu lia sobre nossos irmãos presos, eu orava: ‘“Jeová, por favor, qualquer coisa menos ser preso!” Mas ao mesmo tempo eu tinha muita vontade de pregar para os presidiários. Quando perguntei aos irmãos sobre a pregação em presídios, eles explicaram que, naquela época, nós não tínhamos permissão de visitar os presidiários no Cazaquistão. Então, ao enfrentar o meu julgamento, eu não sabia direito o que sentir. Por um lado, eu estava com medo. Mas ao mesmo tempo eu senti que meu sonho de pregar para os presidiários ia se tornar realidade.

Então você teve oportunidade de dar testemunho enquanto estava na prisão?

Teymur: Tive sim. Uma vez, um policial queria falar comigo e me chamou. Quando eu entrei na sala dele, ele disse: “Eu sei que você é Testemunha de Jeová, então nem pense em pregar pra mim!” Eu respondi: “Esse não é o meu plano.” Então ele me perguntou: “Qual é o nome de Deus?” Eu disse: “O nome de Deus é Jeová.” Daí ele continuou: “Então quem é Jesus? Ele não é Deus?” Eu falei: “Não, ele é o Filho de Deus.” Daí ele perguntou: “Por que os cristãos ortodoxos acreditam que ele é Deus?” E eu disse: “Você deveria fazer essa pergunta a eles.”

Em outra situação, eu consegui falar com umas 40 pessoas ou mais ao mesmo tempo. Uma psicóloga foi ao presídio visitar os detentos. Estávamos falando sobre casamento, e ela nos perguntou o que pensávamos sobre a poligamia. Todos tiveram oportunidade de dar sua opinião.

Quando chegou a minha vez de falar, expliquei que não tenho uma opinião pessoal, mas que gosto da opinião de outra pessoa sobre esse assunto, e queria compartilhar isso com eles. Daí eu disse: “Por isso é que o homem deixará seu pai e sua mãe e se apegará à sua esposa, e eles se tornarão uma só carne.” (Gênesis 2:24) A psicóloga me perguntou: “De quem é essa opinião?” E eu respondi: “Essa é a opinião de Jeová Deus, aquele que criou a humanidade. O texto fala só de duas pessoas, não mais do que duas.”

Daí ela perguntou: “Você tem algum outro motivo para pensar que um homem deve ter apenas uma esposa?” Eu citei Mateus 7:12, onde está escrito: “Todas as coisas que querem que os homens façam a vocês, façam também a eles.” Eu disse: “Foi Jesus quem disse isso. Pergunte aos homens aqui presentes se eles gostariam de dividir a esposa deles com outro homem. Se os homens não querem que suas esposas tenham outro marido, então com certeza as mulheres não querem que seus maridos tenham mais de uma esposa.” A psicóloga disse que, de todas as respostas, a minha foi a que ela mais gostou.

É muito encorajador saber que, apesar das circunstâncias difíceis, você encontrou oportunidades para pregar aos que estavam ao seu redor!

Depois que o tribunal rejeitou vários recursos para a sua liberdade, incluindo uma apelação para a Suprema Corte do Cazaquistão, parecia que, do ponto de vista jurídico, não havia mais o que fazer.

Mas você teve uma oportunidade de ser solto se assinasse uma confissão. Pode nos contar sobre isso e por que você se recusou a assinar a confissão?

Teymur: Na verdade, várias vezes eles me deram a chance de assinar essa confissão. Apesar de parecer um ato de bondade deles, na realidade esse documento declarava que eu era culpado das acusações contra mim e que eu estava pedindo desculpas pelas minhas ações. Mais tarde, eles me deram a opção de escrever a minha própria confissão e pedir perdão. As autoridades me instruíram a escrever que eu cometi um erro por falar com outros sobre as minhas crenças, mas que eu estava arrependido das minhas ações e queria ser solto por causa do meu estado de saúde.

Eu recusei todas essas confissões de culpa e disse para as autoridades que preferiria ficar na prisão com a consciência limpa do que ser solto com a consciência pesada.

Parabéns pelo seu exemplo de fé e por ter se recusado a violar sua consciência!

Mas por fim as coisas mudaram e aconteceu algo que ninguém estava esperando. Você pode nos contar como descobriu que seria absolvido e libertado da prisão?

Teymur: Um dia, um guarda me disse que havia uma ligação para mim. Lembro que pensei: “Quem iria me ligar?” Quando eu peguei o telefone, uma mulher se apresentou e disse que viria até o presídio para me soltar. Eu não sabia o que pensar. Então, depois que ela desligou, decidi contar ao meu filho o que aconteceu, porque eu não queria dar um susto na minha esposa com essa notícia, nem queria dar falsas esperanças a ela.

Depois que desliguei o telefone, o guarda me perguntou: “O que te falaram no telefone?” Eu disse que alguém devia estar brincando comigo, porque uma mulher tinha acabado de dizer que viria à prisão para me libertar.

Mark Sanderson, membro do Corpo Governante, com Teymur e Mafiza Akhmedov, assim que o irmão Teymur foi libertado da prisão.

O guarda respondeu que ela não estava brincando, mas que estava falando a verdade.

Mafiza, como você reagiu a essa notícia emocionante?

Mafiza: Quando meu filho me contou, eu também achei que era brincadeira. Estávamos esperando havia muito tempo por essa notícia!

Mal podemos imaginar como vocês se sentiram quando se reencontraram depois de mais de um ano que Teymur ficou preso!

Pensando em tudo que passaram, o que vocês aprenderam desse teste de fé?

Mafiza: Eu me lembro de como lamentava a situação do irmão Bahram Hemdemov e da irmã Gulzira Hemdemov. [O irmão Hemdemov foi preso em março de 2015 pelas autoridades do Turcomenistão. Em 19 de maio de 2015, ele foi sentenciado a quatro anos de prisão por causa de acusações falsas de “incitar ódio religioso”. Ele continua preso.] Antes mesmo da prisão de Teymur, eu pensava em como deve ser difícil para a Gulzira. Minha vontade agora é de dar um abraço nela e expressar meu profundo amor e apoio. Por eu ter passado por essa provação com o Teymur, eu gostaria de falar para ela que entendo a dor que ela sente. Eu sei que, assim como eu, ela precisa do apoio de Jeová e dos irmãos.

Sou muito grata a todos os irmãos que nos apoiaram, tanto aos irmãos na nossa congregação como aos de todas as congregações ao redor do mundo, e também ao Corpo Governante, aos advogados e aos nossos filhos.

Irmão Teymur Akhmedov segurando seu certificado de indulto depois de sair da prisão.

Teymur: Só posso dizer uma coisa: todos nós enfrentamos provas. É claro que não são todos que vão ser presos. Para alguns, a provação pode ser a oposição de um membro da família que não é cristão. Para outros, pode ser a dificuldade de lidar com um irmão ou uma irmã na congregação. Não importa qual seja o nosso desafio ou provação, cada um de nós tem a oportunidade de agir de acordo com as orientações de Deus ou de desconsiderar essas orientações. Se seguirmos as orientações de Jeová, vamos ser bem sucedidos ao passar por provações. A melhor coisa a fazer é aceitar nossas provações e lembrar de que Jeová vai nos dar a força para perseverar e suportar as dificuldades.

Sou muito grato a minha família e aos meus filhos, que me apoiaram. Eles aproveitavam toda oportunidade para me visitar, e isso me ajudou a continuar forte.

Também quero agradecer por tudo que os irmãos ao redor do mundo fizeram. Suas orações e cartas encorajadoras foram muito importantes para mim. Não me senti abandonado nem por um minuto. O que aconteceu comigo aumentou meu amor por todos os irmãos e fortaleceu minha amizade com Jeová.