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Testemunhas de Jeová

Língua angolana de sinais

A Sentinela (Edição de Estudo)  |  Maio de 2017

 HISTÓRIA DE VIDA

Ser surdo não me impediu de ensinar a verdade a outros

Ser surdo não me impediu de ensinar a verdade a outros

Eu me batizei em 1941, quando tinha 12 anos. Mas foi só em 1946 que eu comecei a entender a Bíblia. Parece estranho, né? Depois que eu explicar minha história, você vai entender melhor.

Por volta de 1910, meus pais se mudaram de Tbilisi, na Geórgia, para o Canadá. Eles moravam numa chácara perto de Pelly, Saskatchewan. Eu nasci em 1928, e meus pais já tinham 5 filhos. Meu pai morreu faltando seis meses para eu nascer, e minha mãe morreu quando eu ainda era bebê. Pouco tempo depois, Lucy, minha irmã mais velha, morreu aos 17 anos. Por isso, meu tio Nick teve que cuidar de mim e de meus irmãos.

Quando eu tinha mais ou menos uns dois anos, alguns da minha família me viram puxando o rabo de um cavalo. Eles ficaram apavorados pensando que o cavalo ia me dar um coice. Daí, eles gritaram pra eu sair dali. Eu estava de costas e não ouvi nada, por isso nem saí do lugar. Foi aí que eles descobriram que eu era surdo.

Um amigo do meu tio disse pra ele que seria bom se eu fosse estudar numa escola de surdos. Daí, o tio Nick me matriculou numa escola em Saskatoon, Saskatchewan. Ela ficava bem longe de casa. Eu só tinha 5 anos e fiquei apavorado. Eu só podia visitar minha família nos feriados e nas férias. Com o tempo, aprendi língua de sinais e fiz amizade com as outras crianças da escola.

COMO APRENDI A VERDADE?

Em 1939, minha irmã Marion se casou com Bill Danylchuck. Eles passaram a cuidar de mim e da minha irmã Frances. Os dois foram os primeiros da minha família a estudar a Bíblia com as testemunhas de Jeová. Quando eu ia pra casa nas minhas férias, eles me ensinavam tudo o que podiam sobre a Bíblia. Eles não sabiam língua de sinais, por isso não era fácil conversar com eles. Mesmo assim, eles viam que eu gostava muito de aprender sobre Jeová. E vendo eles ir pregar, eu pensava: ‘Bom, se eles estão pregando, é porque isso deve estar na Bíblia.’ Daí, comecei a ir com eles na pregação. Não demorou muito e eu quis me batizar. Em 5 de setembro de 1941, Bill me batizou num barril de metal. A água estava muito, muito fria!

Em 1946, com um grupo de surdos num congresso em Cleveland, Ohio

Em 1946, quando estava de férias em casa, nós fomos num congresso em Cleveland, Ohio, Estados Unidos. Para eu entender o que era dito, minhas irmãs escreviam no papel o que o orador dizia. Mas, no segundo dia do congresso, fiquei sabendo que uma irmã estava traduzindo os discursos em língua de sinais. Eu fiquei tão feliz! Pela primeira vez na vida eu podia entender sem dificuldade o que a Bíblia ensina!

ESINANDO A VERDADE

Naquela época, a Segunda Guerra Mundial tinha acabado, e as pessoas queriam mostrar que eram leais ao país. Eu tinha acabado de voltar do congresso para a escola e estava decidido a ser fiel a Jeová. Eu parei de cantar o hino nacional, saudar à bandeira e comemorar feriados. Também parei de ir na igreja com as outras crianças. A direção da escola não gostou nem um pouco disso. Eles me ameaçavam e diziam mentiras para eu mudar de ideia. Meus colegas percebiam o que estava acontecendo. Isso era bom, porque eu tinha muitas chances de dar testemunho. Alguns dos meus colegas, como Larry Androsoff, Norman Dittrick e Emil Schneider se tornaram Testemunhas de Jeová mais tarde. Eles continuam fiéis a Jeová até hoje.

Sempre dava testemunho para os surdos quando viajava pra outros lugares. Por exemplo, em Montreal, fui num lugar onde os surdos se reuniam. Lá, dei testemunho para Eddie Tager. Ele fazia parte de uma gangue. Hoje, ele faz parte da congregação de sinais de Laval, em Quebec. Também conheci um jovem chamado Juan Ardanez. Ele fazia muitas pesquisas para ter certeza de que estava aprendendo o que estava na Bíblia, assim como os cristãos de Bereia do passado. (Atos 17:10, 11) Ele se tornou Testemunha de Jeová e serviu como ancião em Ottawa, Canadá, até sua morte.

Dando testemunho na rua, lá pelos anos 1950

Em 1950, me mudei para Vancouver. Sempre gostei muito de pregar para os surdos, mas nunca me esqueço de uma experiência que tive com uma mulher ouvinte chamada Chris Spicer. Eu estava pregando na rua, e ela aceitou uma assinatura das nossas revistas. Chris queria que eu visitasse o marido dela, Gary. Eu fui até a casa deles, e tivemos uma longa conversa trocando bilhetes. Depois disso, não vi mais eles. Daí, num congresso em Toronto, Ontário, Chris e Gary vieram me cumprimentar. Pra minha surpresa, Gary ia se batizar naquele dia. Essa experiência me ensinou que é muito importante nunca deixar de pregar. Afinal de contas, nunca sabemos quem vai aceitar a verdade.

Mais tarde, voltei para Saskatoon. Lá, encontrei uma mulher que me pediu para eu estudar a Bíblia com as duas filhas gêmeas dela, Jean e Joan Rothenberger. As meninas eram surdas e estudavam na mesma escola que eu tinha estudado. Não demorou muito e elas já estavam contando para os colegas o que estavam aprendendo da Bíblia. Por fim, cinco colegas delas se tornaram Testemunhas de Jeová. Uma delas era Eunice Colin. A primeira vez que vi Eunice foi no meu último ano na escola. Ela tinha me dado um doce e perguntou se a gente podia ser amigos. Depois de uns anos, Eunice se tornou parte importante da minha vida, ela se tornou minha esposa

Com Eunice, em 1960 e em 1989

Quando a mãe da Eunice soube que ela estava estudando a Bíblia, ela pediu para o diretor da escola convencer Eunice a parar. Ele tirou os livros que ela usava para estudar a Bíblia. Mesmo assim, Eunice estava decidida a ser fiel a Jeová. Quando ela disse que queria se batizar, os pais dela disseram: “Se você virar Testemunha de Jeová, não vai poder mais morar aqui em casa.” Por isso, com 17 anos, Eunice saiu de casa e foi morar com uma família de irmãos. Ela continuou estudando a Bíblia e por fim se batizou. Em 1960 nós nos casamos. Os pais dela não foram no casamento. Mas com o tempo eles começaram a respeitar nossas crenças por causa do jeito que a gente vivia e criava nossos filhos.

JEOVÁ TEM CUIDADO DE MIM

Meu filho Nicholas e sua esposa, Deborah, servindo no Betel de Londres

Não foi fácil pra mim e a Eunice criar sete meninos ouvintes. Mas fizemos questão que eles aprendessem língua de sinais. Assim, a gente podia conversar com os meninos e ensinar eles sobre Jeová. Os irmãos e irmãs da congregação também nos ajudaram muito. Por exemplo, uma vez, um irmão escreveu um bilhete pra nós dizendo que um dos nossos filhos estava falando palavrões no Salão do Reino. Demos um jeito nisso na mesma hora. Quatro dos nosso filhos, James, Jerry, Nicholas e Steven são anciãos e servem a Jeová fielmente com suas esposas e famílias. Também, Nicholas e a esposa dele, Deborah, trabalham no Betel da Inglaterra com língua de sinais. E Steven e a esposa, Shannan, trabalham com língua de sinais no betel dos Estados Unidos.

Meus filhos James, Jerry e Steven com suas esposas apoiam a pregação em língua de sinais de diversas maneiras

Infelizmente, um mês antes de a gente completar 40 anos de casados, Eunice morreu de câncer. Nessa fase difícil, a fé que Eunice tinha na ressurreição ajudou ela a continuar firme e forte. Não vejo a hora de poder ver a Eunice de novo!

Faye e James, Jerry e Evelyn, Shannan e Steven

IEm fevereiro de 2012 eu cai e quebrei o quadril. Como não conseguia mais fazer as coisas sozinho, fui morar com um dos meus filhos e minha nora. Nós frequentamos a congregação de sinais de Calgary, onde eu sirvo como ancião. Na verdade, essa é a primeira vez que eu faço parte de uma congregação de língua de sinais! Sabe como eu consegui continuar tendo uma amizade forte com Jeová durante todos esses anos? Com a ajuda de Jeová. Ele cumpriu a promessa que fez de cuidar dos órfãos. (Salmo 10:14) Não tenho palavras pra agradecer todos os irmãos que fizeram anotações pra mim, aprenderam língua de sinais e traduziram os discursos da melhor forma que podiam.

Quando tinha 79 anos fiz a Escola de Pioneiro em língua de sinais americana

Às vezes eu não conseguia entender o que as pessoas queriam dizer. Outras vezes tinha a impressão que ninguém sabia como ajudar de verdade os surdos. Nessas horas eu me sentia cansado e tinha vontade de desistir. Mas daí eu me lembrava do que Pedro disse para Jesus: “Senhor, para quem iremos? O senhor tem declarações de vida eterna.” (João 6:66-68) Assim como muitos irmãos e irmãs surdos que servem a Jeová já por muitos anos, eu aprendi a ter paciência. Aprendi a confiar em Jeová e na organização dele. Fazer isso foi muito bom pra mim. Hoje em dia tem um monte de publicações em língua de sinais. E fico muito feliz de poder assistir às reuniões e congressos em língua de sinais. Sem dúvida, minha vida é feliz e completa porque sirvo a Jeová, nosso Grandioso Deus.